Juína, em Mato Grosso, abriga diamantes raros que revelam se
Município mato-grossense é foco de estudos científicos globais devido a diamantes superprofundos que trazem pistas sobre o manto terrestre e o ciclo da água no
Município mato-grossense é foco de estudos científicos globais devido a diamantes superprofundos que trazem pistas sobre o manto terrestre e o ciclo da água no planeta.
Juína, localizada a 730 km de Cuiabá, consolidou-se como um ponto de interesse científico global. Conhecida historicamente pela exploração diamantífera, a cidade mato-grossense esconde em seu subsolo evidências de camadas profundas da Terra, inacessíveis por métodos diretos de perfuração. O geólogo e gemólogo Daniel Fernandes, graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que a região é privilegiada pela presença de kimberlitos, estruturas vulcânicas antigas que atuaram como elevadores naturais, trazendo à superfície diamantes formados a centenas de quilômetros de profundidade.
Diferente dos vulcões convencionais, os kimberlitos de Juína possuem características únicas, com dutos que alcançam profundidades superiores a 400 quilômetros. Segundo Fernandes, essa particularidade torna o município um dos locais mais relevantes do mundo para a pesquisa geológica. Enquanto a maioria dos diamantes comerciais se origina no manto litosférico, entre 140 e 200 quilômetros de profundidade, as gemas encontradas em Juína frequentemente contêm minerais associados a zonas de transição e ao manto inferior, sendo classificadas como diamantes superprofundos.
O valor científico dessas pedras reside, paradoxalmente, em suas imperfeições. Muitas vezes, os diamantes da região apresentam um aspecto bruto e irregular, devido a inclusões — fragmentos microscópicos de outros minerais aprisionados durante a formação da gema. Para a joalheria, essas impurezas reduzem o valor comercial, mas para a ciência, elas funcionam como cápsulas do tempo que preservam informações sobre a pressão, temperatura e composição química do interior do planeta há milhões de anos.
Uma pesquisa recente, liderada pela geóloga Carolina Camarda, da Universidade de Brasília (UnB), em colaboração com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), utilizou a tecnologia do Sirius, em Campinas (SP), para analisar um diamante coletado no Chapadão, em Juína. O estudo, publicado na revista Scientific Reports , identificou mais de 100 inclusões, incluindo um oxihidróxido de ferro composto por goethita, hematita e magnetita, evidenciando pressões típicas de profundidades entre 300 e 1.000 quilômetros.
A presença de goethita, um mineral hidratado, trouxe uma descoberta significativa: a possibilidade de que minerais atuem como veículos de transporte de componentes da água da superfície para o interior do manto, através do processo de subducção tectônica. Essa hipótese auxilia cientistas a compreenderem o ciclo profundo da água, um fenômeno complexo que ocorre em regiões onde as temperaturas podem ultrapassar os 2.000°C, desafiando as noções anteriores sobre a estabilidade de minerais hidratados.
No cenário econômico local, a exploração desses diamantes é majoritariamente voltada para fins industriais, com cerca de 80% a 85% das pedras sendo utilizadas em ferramentas de corte e abrasivos. Daniel Fernandes ressalta que a rentabilidade é modesta, servindo muitas vezes apenas para cobrir os custos operacionais. Contudo, a raridade ocasional de gemas de alto valor, como os diamantes rosas, ainda atrai garimpeiros e investidores para a região.
A busca por inclusões relevantes é descrita pelo especialista como um trabalho minucioso e de longo prazo. O fato de os diamantes de Juína serem estudados por instituições de países como Canadá, Rússia e China reforça a importância estratégica do município para a geologia mundial. Cada grão de mineral preservado dentro dessas pedras oferece uma oportunidade única de decifrar o funcionamento interno da Terra, suprindo a impossibilidade humana de alcançar o centro do planeta.
Fonte: midianews.com.br